Denison Luz.
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Posicionamento e sociedade 18 jul 20267 min de leitura

Colorismo no Brasil: O Racismo Que Ninguém Quer Ver

O que é colorismo e como se manifesta no imaginário social brasileiro? Entenda como essa discriminação silenciosa opera na mídia, no trabalho e na beleza. Leia agora.

em resumo

Colorismo é a discriminação pela tonalidade de pele dentro da própria população negra: quem tem pele mais clara sofre menos exclusão do que quem tem pele retinta, mesmo na mesma família. Isso aparece na mídia, na beleza e no salário. Segundo o IBGE 2024, pretos recebem 61% do salário de brancos, e pardos, 74%.

O que é colorismo e como ele se manifesta no imaginário social brasileiro? Essas perguntas expõem uma contradição que o Brasil prefere ignorar. O país adora se apresentar ao mundo como uma democracia racial. A mestiçagem virou símbolo de identidade nacional, celebrada em discursos, festas e campanhas publicitárias. Mas existe uma pergunta que esse discurso nunca responde: por que, dentro da população negra, algumas pessoas avançam mais do que outras? Por que a filha de pele clara chega a lugares que a prima de pele retinta não chega, mesmo tendo o mesmo sobrenome, a mesma família, o mesmo bairro?

A resposta tem nome. Chama-se colorismo. E ele opera no silêncio dos elogios, nas escolhas dos diretores de casting, nos contracheques e nos filtros de beleza do celular. Você já parou para notar isso?

E ele opera no silêncio dos elogios, nas escolhas dos diretores de casting, nos contracheques e nos filtros de beleza do celular.

O que é colorismo e por que ele cria uma hierarquia dentro da negritude

O colorismo não discrimina pela raça. Ele discrimina pela tonalidade dentro da mesma raça. Enquanto o racismo estrutural age entre grupos raciais diferentes, o colorismo constrói uma hierarquia interna, o que os pesquisadores chamam de preconceito intragrupal: um negro de pele clara, e um negro de pele retinta, não enfrentam a mesma intensidade de exclusão. O Cambridge Dictionary define o conceito como “tratamento injusto de membros de um grupo racial que têm cor de pele mais escura do que outros”. A autora Alessandra Devulsky, em seu livro Colorismo, aprofunda esse olhar ao mostrar que o preconceito de tonalidade já operava no período da escravidão nos Estados Unidos, onde negros de pele mais clara recebiam tratamento preferencial.

O conceito que sustenta essa lógica é o de pigmentocracia: um sistema que mede o valor social de uma pessoa conforme a proximidade com a branquitude. Quanto mais retinta a pele, maior a marginalização. Isso não é percepção subjetiva. É realidade mensurável em salários, representações na mídia e acesso a oportunidades. O Brasil, com sua história particular de miscigenação forçada e apagamento cultural, criou uma das versões mais sofisticadas desse sistema.

Como a escravidão construiu essa lógica intencionalmente

O colorismo não surgiu por acaso. Foi plantado como estratégia de controle. Durante a escravidão, senhores destinavam os escravizados de pele mais clara ao trabalho doméstico e os de pele mais escura às lavouras e ao trabalho pesado. Essa divisão não era apenas prática. Era política: criava rivalidades internas, impedia a cooperação coletiva e fragmentava qualquer possibilidade de resistência organizada. Pesquisadores como Guilherme Oliveira, da Unicamp, documentam esse mecanismo, em trabalhos sobre formação racial e estratégias de controle no período colonial, como uma engrenagem deliberada do sistema escravocrata.

Depois da abolição, em 1888, a elite brasileira adotou teorias eugenistas e promoveu o mito da mestiçagem harmoniosa como estratégia de embranquecimento gradual da população. O projeto era explícito: incentivar uniões entre pessoas de pele mais clara para que, em poucas gerações, o fenótipo africano fosse diluído. Esse projeto não ficou restrito aos livros de história. Ele deixou no imaginário coletivo uma ideia que ainda organiza preferências estéticas, oportunidades de emprego e julgamentos sociais: a aproximação com a branquitude é desejável. Essa ideia cobra um preço alto de quem está mais distante dela, e é exatamente aí que o racismo colorista se torna mais cruel, porque opera de dentro para fora, fragmentando a própria comunidade negra.

Onde o colorismo aparece hoje: mídia, beleza e mercado de trabalho

Em 2024 e 2025, a TV Globo lançou três novelas simultâneas com protagonistas negras: Garota do Momento, Volta por Cima e Mania de Você. Um avanço real na representação. Mas todas as protagonistas, Duda Santos, Jéssica Ellen e Gabz, são de pele mais clara. Mulheres negras retintas permanecem nos papéis de empregadas ou personagens sem profundidade. O padrão se repete na publicidade e na indústria da beleza, onde produtos para peles retintas são escassos e o mercado de clareamento prospera exatamente porque a sociedade transmite a mensagem de que a pele mais clara abre mais portas.

Os dados do IBGE para 2024 confirmam que essa mensagem tem fundamento econômico real. Pessoas brancas recebem, em média, 65,9% mais por hora trabalhada do que pretos e pardos. Quando a análise separa pretos de pardos, o colorismo aparece com clareza: pretos recebem apenas 61% do salário de brancos, enquanto pardos recebem 74%. A diferença pode parecer pequena em termos absolutos, mas revela que a tonalidade da pele funciona como variável econômica independente. O dado mais revelador: mesmo com ensino superior completo, pessoas brancas ganham 44,6% mais do que pretas e pardas com a mesma qualificação. A escolaridade não apaga o efeito da tonalidade.

Contranarrativas e o papel da comunicação negra

Nesse cenário, comunicadores negros que escolhem falar abertamente sobre identidade racial, comportamento e experiências reais sem filtrar quem merece ser protagonista exercem um papel político. É o caso de Denison Luz, criador de conteúdo que usa a comunicação para ampliar o que o imaginário social considera visível e válido, sem gradações de aprovação baseadas na tonalidade da pele.

A linguagem cotidiana que sustenta o preconceito invisível

Termos como “moreno claro”, “caramelo”, “café com leite” e “pardo” não são neutros. Eles criam um continuum que fragmenta a identidade negra e privilegia quem está mais próximo da branquitude, suavizando uma classificação que deveria ser direta. A expressão “cor de pele” ainda alude à pele branca como padrão universal. “Da cor do pecado”, usada como elogio, carrega séculos de hipersexualização colonial da mulher negra. E expressões como “a coisa tá preta”, “lista negra” e “inveja branca” reforçam, no inconsciente coletivo, que o negro é sinônimo de problema e o branco de pureza.

A depreciação dos traços afro segue a mesma lógica. “Cabelo ruim” e “cabelo duro” não são apenas ofensas estéticas. São instrumentos que comunicam que a herança africana é, por si só, inferior. Os algoritmos das redes sociais amplificam tudo isso: filtros que clareiam a pele, afinam narizes e europeízam traços são priorizados porque geram mais engajamento, criando um ciclo em que o padrão de branquitude se retroalimenta digitalmente.

Reconhecer o colorismo é o primeiro passo para enfrentá-lo. Na prática, isso exige nomear o fenômeno quando ele aparece em conversas, e não deixar passar. Exige também questionar as representações na mídia que você consome, rever o próprio vocabulário e dar visibilidade a criadoras e criadores negros de pele retinta que raramente ocupam o centro do enquadramento. O colorismo sobrevive na invisibilidade. Quando é nomeado com precisão, perde parte do seu poder.

O Brasil não vai superar o racismo enquanto não encarar o colorismo

O paradoxo é esse: um país que celebra a mistura de povos construiu internamente uma hierarquia que pune quem carrega mais visivelmente a herança africana. O colorismo não é um detalhe do racismo. É um dos seus mecanismos mais eficientes, porque opera dentro da própria comunidade negra, fragmentando identidades e impedindo solidariedade coletiva.

Ele aparece nos elogios que soam bem, nas telas que parecem diversas mas não são, nos contracheques que confirmam o que o olhar já percebia. Carregar esse imaginário sem questioná-lo é perpetuá-lo.

Entender o que é colorismo e como ele se manifesta no imaginário social brasileiro é o começo de qualquer transformação real. Não basta tolerar a diversidade dentro de uma escala de cores. O Brasil que queremos é aquele que reconhece o valor pleno de cada tonalidade, e a mudança começa quando cada pessoa decide, em um gesto concreto, parar de tratar a cor da pele como critério invisível de valor.

perguntas frequentes

O que é colorismo e em que ele difere do racismo estrutural?

Colorismo é a hierarquia criada pela tonalidade da pele dentro do mesmo grupo racial. Enquanto o racismo estrutural separa grupos raciais diferentes, o colorismo distingue negros de pele clara e negros de pele retinta, dando tratamento e oportunidades desiguais mesmo dentro da mesma família ou comunidade negra.

Como o colorismo aparece hoje na mídia brasileira?

Em 2024 e 2025, a Globo lançou três novelas com protagonistas negras, Duda Santos, Jéssica Ellen e Gabz, todas de pele mais clara. Mulheres negras retintas continuam restritas a papéis de empregadas ou personagens sem profundidade, repetindo o padrão também na publicidade e na indústria da beleza.

O que fazer no dia a dia para enfrentar o colorismo?

É preciso nomear o fenômeno quando aparecer em conversas, questionar as representações da mídia que você consome, revisar expressões do próprio vocabulário, como cabelo ruim ou cor de pele, e dar visibilidade a criadores negros de pele retinta que raramente ocupam o centro do enquadramento.

se alguma coisa aqui fez sentido, me conta no dm. pode ser uma palavra só — eu respondo.