Denison Luz.
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Posicionamento e sociedade 14 jul 20266 min de leitura

Quando o preço vira muro: quem fica do lado de fora?

Preços altos excluem mais do que carteiras: definem pertencimento social. Veja quem paga mais caro por isso no Brasil e o que pode mudar.

O impacto dos preços elevados na inclusão em certos círculos sociais vai além dos números: ele decide, antes de qualquer conversa, quem pertence e quem passa ao largo. A festa existe, o bairro existe, a escola existe, o grupo existe, mas para quem? Essa é a pergunta que ninguém enuncia em voz alta, porque o preço já respondeu.

ReelAlgumas pessoas não pagam caro para entrar. Pagam caro para que outras não entrem.

Essa dinâmica está no centro de muito do que o comunicador e influenciador digital Denison Luz narra em seu trabalho: a experiência de transitar entre mundos com regras de acesso não escritas, mas claramente sentidas por quem vive na pele a diferença entre ser bem-vindo e ser tolerado. Preço elevado não é só inconveniência. Em certos contextos, é exclusão disfarçada de normalidade.

O impacto dos preços elevados na inclusão em certos círculos sociais: o preço como código de pertencimento

A afirmação de que “qualquer um pode entrar” é, com frequência, uma ilusão bem-intencionada. Na prática, os espaços sociais cobram ingressos que vão muito além do valor impresso no bilhete. Pesquisadores do campo da sociologia urbana, como os do Núcleo de Estudos da Violência da USP, há anos documentam como o shopping substituiu a praça pública em diversas cidades brasileiras, mas com uma diferença estrutural: na praça, ninguém te cobra para sentar. No shopping, o consumo é o bilhete de pertencimento. Quem não consome lê a mensagem sem precisar de legenda.

Os casos do Iguatemi e do Morumbi Shopping ilustram esse mecanismo. A instalação dessas estruturas valorizou o entorno, elevou o preço da terra e deslocou moradores e comerciantes informais que não conseguiam pagar os novos custos, dinâmica documentada em estudos do IPEA sobre elitização e privatização do espaço urbano. Nenhuma lei expulsou ninguém. O mercado tratou disso. A barreira econômica à participação social não precisa de placa, de porteiro ou de aviso formal. Ela se impõe pelo custo do aluguel, do ingresso, do cardápio ou simplesmente da roupa que comunica “você é daqui”.

Ela se impõe pelo custo do aluguel, do ingresso, do cardápio ou simplesmente da roupa que comunica “você é daqui”.

O mesmo processo acontece com bairros, praias e eventos culturais. À medida que os preços sobem, o espaço muda de público sem que nenhuma lei formalize essa substituição. A elitização não é declarada. Ela acontece endereço por endereço, ciclo por ciclo, até que quem ficou de fora não consiga mais explicar exatamente quando deixou de ser bem-vindo.

Quem paga mais caro por essa exclusão

Raça, gênero e deficiência: quando as barreiras se multiplicam

Preço alto afeta a todos, mas não afeta a todos da mesma forma. No Brasil, as variáveis de raça, gênero e deficiência se combinam de maneira que não apenas acumula dificuldades, as amplifica. Dados do IBGE mostram que famílias chefiadas por mulheres negras estão entre as de menor renda per capita do país, o que significa que gastos com alimentação frequentemente comprometem parcela tão significativa do orçamento que lazer, eventos sociais e educação saem da equação antes de qualquer escolha consciente. A mesma instituição aponta que a diferença salarial por raça supera, em média, a diferença por gênero, uma estrutura que se reproduz há décadas.

Pessoas com deficiência enfrentam uma camada adicional: os custos de deslocamento, tecnologia assistiva e cuidados reduzem ainda mais a renda disponível. Quando se acumulam marcadores como raça e deficiência, a exclusão não cresce de forma linear, ela se intensifica. A concentração de serviços em grandes centros urbanos e a ausência de acessibilidade física e econômica fecham um círculo muito difícil de romper apenas por mérito individual.

O que os dados brasileiros revelam sobre desigualdade de consumo e isolamento

Inflação, moradia e o custo da periferização

Entre 2019 e 2022, os preços dos alimentos no Brasil subiram 37,5%, contra 21,7% do índice geral de preços, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE. Para famílias que já comprometiam 60% da renda com alimentação, esse aumento não foi apenas financeiro: foi geográfico. A literatura sobre periferização indica que parcelas dessas famílias migraram para regiões com menos serviços, se afastaram dos centros onde a vida social se concentra e viram reduzir o acesso a espaços de convivência. A segregação socioeconômica não precisa ser declarada para ser real.

O custo psicológico invisível

Em 2025, o custo da moradia acumulou alta de 14% e o transporte, 17,93% em doze meses. O Relatório de Desigualdade Global do Banco Mundial de 2024 e dados do IPEA confirmam que a desigualdade voltou a crescer, com a renda dos mais ricos avançando mais rápido que a dos mais pobres. O resultado é mensurável: mais pobreza, mais isolamento e menos mobilidade social. Pesquisas qualitativas do FGV Social sobre bem-estar subjetivo mostram que a incapacidade de arcar com padrões de consumo está associada a sentimentos de inferioridade, não pertencimento e ansiedade crônica. O custo psicológico da exclusão é invisível nos índices, mas concreto na vida cotidiana, e esse é precisamente o lado do impacto dos preços elevados na inclusão em certos círculos sociais que as estatísticas de renda raramente capturam.

Reduzir esse muro é possível, mas exige escolha

Barreiras construídas por décadas não caem com um único programa, mas as evidências mostram que políticas públicas consistentes produzem resultados reais. O Bolsa Família e o Plano Brasil sem Miséria foram responsáveis por cerca de 25% da redução da pobreza no país, conforme estudo do IPEA publicado em 2015 (Texto para Discussão n.º 2228). O novo modelo do Bolsa Família, em 2023, retirou 18 milhões de pessoas da pobreza e 9,6 milhões da extrema pobreza em menos de dois anos. Esses números mostram que a exclusão por preço não é inevitável. Ela é uma escolha política, e pode ser revertida.

Ainda assim, a transferência de renda resolve o curto prazo. Sem inclusão produtiva, educação de qualidade e acesso a serviços básicos, o muro se reconstrói. É por isso que o papel de iniciativas comunitárias, feiras de economia solidária, bibliotecas comunitárias, cineclubes gratuitos e redes de apoio em periferias, é central: elas criam pertencimento que não depende do preço de entrada e constroem acessibilidade econômica de baixo para cima.

Nomear a exclusão já é parte da solução

Parte do trabalho de comunicadores como Denison Luz é exatamente esse: nomear o que acontece, dar vocabulário a quem sente mas não consegue articular e construir pontes entre mundos que raramente se encontram. Quando alguém reconhece num vídeo, numa fala ou num texto a dinâmica que vivia sem conseguir descrever, algo concreto muda: a percepção de que aquela situação não é falha individual, mas produto de estruturas que podem ser contestadas. Nomear a exclusão não resolve tudo, mas é o primeiro passo para que ela deixe de parecer natural.

O impacto dos preços elevados na inclusão em certos círculos sociais não é apenas uma questão econômica. É uma questão de quem merece pertencer. Toda sociedade responde a essa pergunta, queira ou não, com cada política que aprova ou ignora e com cada espaço que escolhe tornar acessível ou exclusivo. O preço virou muro, mas muros são construções humanas. E o que foi construído pode, com escolhas diferentes, ser desmontado.

se alguma coisa aqui fez sentido, me conta no dm. pode ser uma palavra só — eu respondo.