O Racismo no Futebol Argentino: O Que Está Sendo Feito?
Medidas contra o racismo no futebol argentino existem no papel. Mas a AFA pune alguém? Entenda as falhas, os casos reais e o que precisa mudar agora.
Em setembro de 2025, torcedores argentinos entoaram cânticos racistas contra a seleção colombiana no Monumental de Núñez, durante as Eliminatórias da Copa do Mundo. A FIFA respondeu com uma multa de 120.000 francos suíços à AFA e exigiu um plano de prevenção, decisão documentada em cobertura jornalística ampla à época. Não há registro público de qualquer comunicado da AFA dirigido às arquibancadas, de interdição de torcedores ou de multa aplicada a clubes. Esse silêncio institucional revela mais sobre as medidas contra o racismo no futebol argentino do que qualquer discurso de dirigentes.
Esse debate me interessa de um lugar específico. Como homem negro que produz conteúdo entre o Brasil e a Europa, acompanho como diferentes sistemas esportivos respondem ao racismo, ou deixam de responder. O que vejo na Argentina não é omissão por acidente. É um padrão.
A Lei Existe. A Punição, Não.
A Argentina tem legislação antirracista desde 1988. A Lei 23.592 prevê prisão de um mês a três anos para quem incite ódio racial, agravamento de pena para crimes com motivação racial e obrigação de reparação de danos. Leis provinciais complementam com banimentos de estádios de dois a quatro anos. No papel, o arcabouço jurídico está montado há décadas.
Na prática, nenhum torcedor identificado nos episódios de 2025 foi processado criminalmente com base nessa lei. Os únicos casos documentados de banimento efetivo de torcedores racistas em contexto sul-americano recente apontam para fora da Argentina. A lei existe; a aplicação, não.
O vácuo ficou ainda maior em 2024. O governo Milei dissolveu o INADI em fevereiro daquele ano, por meio de decreto presidencial, encerrando os programas de formação antidiscriminatória e retirando o canal oficial de denúncias. Organizações afro-argentinas como a Agrupação Afro Xangô e o Kilombo seguem atuando, mas sem suporte estatal. Fazem o trabalho que o Estado abandonou.
Medidas contra o Racismo no Futebol Argentino: Quem Pune Quem
A lógica é invertida e reveladora. A FIFA pune a AFA porque a federação é responsável pela conduta da torcida em jogos oficiais. Em 2025, além da multa, a seleção argentina cumpriu uma sanção com público reduzido no jogo seguinte contra a Venezuela, onde uma tribuna foi ocupada apenas por crianças e representantes de organizações não governamentais. Isso não é uma vitória institucional argentina: é uma correção imposta de fora.
No Sul-Americano Sub-17 de abril de 2025, a CONMEBOL suspendeu o jogador Matheo Benítez Machuca por quatro meses após um gesto racista, decisão disciplinar registrada nos comunicados oficiais da entidade. A FIFA estendeu a punição a todas as competições sob sua jurisdição. A resposta da AFA foi planejar o recurso da suspensão. O sinal que isso envia é grave: em vez de reforçar a punição, a federação se posicionou ao lado do jogador sancionado.
O histórico confirma o padrão. A FIFA já havia multado a AFA em 50.000 francos suíços após jogo anterior contra o Brasil e imposto redução de público no jogo seguinte. Nenhum mecanismo interno foi criado em resposta a qualquer dessas sanções. As punições vêm de fora, são pontuais e não alteram o comportamento da AFA.
Responsabilidades da AFA que Permanecem sem Resposta
A ausência de protocolos internos da AFA para identificação e responsabilização de torcedores não é uma lacuna técnica. É uma escolha. Enquanto a entidade não criar mecanismos próprios de fiscalização nos estádios, continuará dependendo de sanções externas para qualquer movimento, e mesmo essas sanções, como mostrou o caso Benítez Machuca, são contestadas.
Programas Educativos Existem. Campanhas Antirracistas, Não.
River Plate, Boca Juniors e Racing Club mantêm programas sociais com resultados concretos. O RiverDAR integra formação esportiva e acadêmica. O programa “Terminá la Escuela en Casa” ajudou mais de 70 adultos a concluir o ensino médio, dado divulgado pelo clube. O Boca exige que jovens das categorias de base estudem paralelamente ao futebol. O Racing opera o “Fútbol para el Cambio Social”. Iniciativas reais, com impacto real em educação e inclusão social.
Nenhuma delas foi desenhada para combater o racismo. Não foi encontrada nenhuma campanha antirracista estruturada de nenhum clube argentino da primeira divisão. A palavra “igualdade” aparece nos discursos institucionais sem metas, sem dados e sem ações voltadas para a questão racial.
O Contraste com Outros Sistemas
A comparação é direta. Na Premier League inglesa, clubes contam com observadores credenciados em todas as partidas, protocolos de identificação e expulsão imediata de torcedores envolvidos em episódios discriminatórios, e política de banimento permanente em vigor desde 2021. No Brasil, o Regulamento Geral de Competições da CBF prevê perda de pontos, portões fechados e perda do mando de campo como sanções desportivas por racismo, medidas que a entidade afirma serem pioneiras entre as confederações. Na Argentina, a discussão ainda está na fase de reconhecer que o problema existe.
O Que o Movimento Negro Exige e o Que o Estado Ignora
A demanda central do movimento afro-argentino é clara e urgente: incluir o autorreconhecimento racial no censo nacional. O argumento é direto. O mito de que “não existem negros na Argentina” é o combustível do racismo no futebol. Sem reconhecimento estatístico, não há políticas públicas possíveis. O Censo de 2022 registrou menos de 3% de afrodescendentes, número considerado severamente subnotificado por historiadores e ativistas do campo.
A ausência de jogadores negros na primeira divisão argentina não é coincidência nem falta de talento. Organizações afro-argentinas denunciam um filtro racista que opera desde as categorias de base, invisibilizado pela narrativa de que o futebol argentino é uma meritocracia pura. Esse filtro não aparece nos registros do Estado porque o Estado ignora raça como categoria de análise.
A ausência de jogadores negros na primeira divisão argentina não é coincidência nem falta de talento.
As demandas formais do movimento são concretas: reconhecimento histórico da presença afrodescendente, sanções efetivas da AFA sem depender da FIFA, recriação de mecanismos de proteção estatal após o fechamento do INADI e ruptura da barreira invisível nos processos de seleção de atletas nas categorias de base.
O Que Precisa Mudar e Por Que Ainda Não Mudou
As respostas institucionais ao racismo no futebol argentino são, até agora, insuficientes. O pouco que existe vem de fora: da FIFA, da CONMEBOL, da pressão internacional. Internamente, a Argentina opera com leis sem aplicação, clubes sem campanhas e uma federação que recorre da suspensão de jogadores racistas em vez de reforçar punições.
Para quem quer pressionar por mudança real, o caminho é específico. Cobrar da AFA a criação de protocolos internos de responsabilização de torcedores. Exigir que clubes desenvolvam campanhas antirracistas com metas mensuráveis, não apenas programas de educação geral. Pressionar pelo estabelecimento de um mecanismo estatal substituto ao INADI. Apoiar financeiramente e com visibilidade as organizações afro-argentinas que fazem esse trabalho sem apoio do Estado.
Enquanto as medidas contra o racismo no futebol argentino não saírem do papel, as arquibancadas vão continuar dizendo o que as instituições preferem não ouvir. O racismo no futebol argentino não é um problema de torcida mal-educada: é o reflexo de uma sociedade que ainda debate se tem negros entre ela. É com essa lente que abordo esses temas no canal Denison Luz, sem eufemismo, sem distância confortável, com a perspectiva de quem sente o peso desse tema na própria vida.
se alguma coisa aqui fez sentido, me conta no dm. pode ser uma palavra só — eu respondo.

