O que acontece com as suas redes sociais quando você morre
O que acontece com Facebook, Instagram, TikTok e Google depois que alguém morre, o que dá para deixar decidido ainda em vida e o que a lei brasileira ainda não resolveu.
Quando alguém morre, o perfil não some sozinho. O Facebook permite escolher em vida um contato herdeiro, e o Google permite indicar até dez pessoas para receber seus arquivos. Instagram e TikTok exigem pedido de quem ficou, com comprovação. No Brasil não existe lei específica: o julgamento do STJ sobre herança digital começou em 2025 e segue suspenso.
Mais cedo ou mais tarde, quase todo mundo passa por isso: a perda de alguém.
Quando uma pessoa morre, ela não desaparece imediatamente do mundo digital. O número continua salvo no celular. O aniversário ainda aparece nas redes sociais. As fotos permanecem ali. O e-mail continua recebendo mensagens. A operadora envia promoções como se nada tivesse acontecido.
Enquanto a família tenta lidar com a saudade, as contas continuam ativas, funcionando e, em alguns casos, gerando cobranças.
Até que, em algum momento, alguém precisa sentar, reunir documentos e resolver tudo isso.
É uma parte do luto sobre a qual quase ninguém fala: a burocracia de encerrar a vida digital de quem partiu.
É uma parte do luto sobre a qual quase ninguém fala: a burocracia de encerrar a vida digital de quem partiu.
Este texto explica o que pode ser feito pelas famílias e também o que cada um de nós pode deixar preparado enquanto está aqui.
No Facebook, você pode escolher quem cuidará do seu perfil
O Facebook possui um recurso chamado contato herdeiro. Ele permite que você escolha, ainda em vida, alguém de confiança para cuidar de alguns aspectos do seu perfil caso ele seja transformado em memorial.
Segundo a Central de Ajuda do Facebook, essa pessoa poderá:
- escrever uma publicação fixada no perfil, como um aviso sobre o velório ou uma mensagem de despedida;
- atualizar a foto do perfil e a foto de capa;
- solicitar a remoção da conta;
- baixar uma cópia do conteúdo compartilhado, caso essa opção tenha sido autorizada.
Mas existem limites importantes. O contato herdeiro não poderá:
- entrar na sua conta;
- ler as suas mensagens;
- apagar amigos;
- enviar novas solicitações de amizade.
Ou seja: essa pessoa poderá cuidar da parte pública do seu perfil, mas nunca terá acesso às suas conversas privadas.
As memórias podem ser preservadas. A intimidade continua protegida.
Para transformar uma conta em memorial, o Facebook informa que amigos e familiares podem fazer a solicitação. Para a remoção definitiva, será necessário apresentar a documentação exigida, como a certidão de óbito.
No Instagram, tudo precisa ser resolvido depois
Embora pertença à mesma empresa, o Instagram não oferece a opção de escolher um contato herdeiro.
Você não consegue deixar alguém previamente responsável pelo seu perfil. Tudo começa somente depois da morte, quando uma pessoa faz o pedido à plataforma.
De acordo com a Central de Ajuda do Instagram, existem dois caminhos.
Transformar o perfil em memorial
Qualquer pessoa pode fazer a solicitação, mas será necessário apresentar uma prova do falecimento. O Instagram aceita, por exemplo, um link para um obituário ou para uma notícia publicada por um veículo de comunicação.
Ao transformar a conta em memorial, a plataforma também procura evitar que o perfil apareça em lugares que possam causar dor aos amigos e familiares, como sugestões, notificações ou lembranças inesperadas.
Remover definitivamente o perfil
Nesse caso, o pedido só pode ser feito por familiares próximos confirmados.
O Instagram poderá exigir documentos que comprovem tanto a morte quanto o vínculo familiar ou a representação legal. Entre os exemplos citados estão a certidão de nascimento da pessoa falecida, a certidão de óbito e a comprovação de que o solicitante é representante legal da pessoa ou do espólio.
Há ainda uma informação importante: o Instagram não entrega os dados de acesso de uma conta transformada em memorial.
Mesmo diante do luto, ninguém receberá a senha. As mensagens privadas não serão abertas nem repassadas à família.
No Google, você pode deixar tudo decidido
O Google oferece o Gerenciador de Contas Inativas, uma ferramenta que permite organizar o que deverá acontecer com os seus dados caso você deixe de usar a conta por um período determinado.
Segundo a documentação oficial do Google, é possível escolher até dez pessoas de confiança e determinar quais informações cada uma poderá receber.
Você pode permitir, por exemplo, que alguém tenha acesso às fotos guardadas no Google Fotos ou aos documentos importantes armazenados no Drive, sem precisar entregar a senha da conta.
Se a conta ficar inativa pelo período configurado, essas pessoas serão avisadas por e-mail e receberão um link para baixar os dados autorizados.
Existe, porém, um detalhe que merece atenção: se você não configurar nenhum plano, o Google poderá excluir uma conta depois de dois anos de inatividade.
Dois anos.
Esse pode ser o tempo entre a perda de alguém e o desaparecimento de fotografias, documentos e lembranças que a família talvez nem soubesse que estavam guardados ali.
No TikTok, ainda faltam respostas claras
Aqui, preciso ser sincero: não consegui confirmar o procedimento diretamente em uma fonte oficial do TikTok.
A página da central de suporte não carregou corretamente, e as informações encontradas em outros sites são contraditórias. Algumas dizem que a plataforma não transforma contas em memorial. Outras afirmam que existe uma forma de fazer a solicitação pelas configurações.
Quando as próprias informações disponíveis não são claras, é melhor reconhecer o limite do que passar uma orientação que pode estar errada.
E o que a lei brasileira diz sobre a herança digital?
O Brasil ainda não possui uma lei específica que resolva todas as questões relacionadas à herança digital.
Existe, porém, uma discussão importante no Superior Tribunal de Justiça, no REsp 2.124.424, iniciado na 3ª Turma em 12 de agosto de 2025, sob relatoria da ministra Nancy Andrighi.
A proposta apresentada separa os bens digitais em duas categorias.
Bens patrimoniais: são aqueles que possuem valor econômico, como criptomoedas, saldos em plataformas e obras protegidas por direitos autorais. Esses bens podem fazer parte do inventário e ser transmitidos aos herdeiros.
Bens existenciais: são conteúdos profundamente pessoais, como mensagens privadas, diários, fotografias íntimas e conversas familiares. Em regra, esse material não seria transmitido, justamente para proteger a privacidade da pessoa mesmo depois da morte.
A relatoria também propôs a criação da figura de um inventariante digital, que teria o dever de identificar, organizar e classificar esses bens, mantendo o sigilo sobre as informações encontradas.
Mas é importante dizer com clareza: esse julgamento foi suspenso por um pedido de vista e ainda não terminou.
Portanto, não existe uma decisão definitiva. Quem afirma que “o STJ já decidiu” está se antecipando a um julgamento que ainda está em andamento.
Hoje, aquilo que possui valor financeiro encontra um caminho jurídico mais claro. Já as conversas, fotografias e lembranças pessoais continuam em uma área muito mais delicada, onde o direito à memória encontra o direito à privacidade.
O que você pode fazer hoje, em vinte minutos
Pensar nisso não é ser pessimista ou mórbido.
É uma forma de cuidado.
É como guardar os documentos importantes em uma gaveta e avisar à família onde eles estão. A diferença é que, hoje, parte da nossa vida não está em gavetas. Está em servidores, aplicativos, nuvens e contas protegidas por senhas.
Algumas atitudes simples já podem poupar a sua família de muita confusão:
- Configure o contato herdeiro do Facebook. Escolha alguém em quem você confia para cuidar da parte pública do seu perfil.
- Configure o Gerenciador de Contas Inativas do Google. Principalmente se você guarda fotografias da família, documentos ou outros arquivos importantes no Drive e no Google Fotos.
- Converse com alguém sobre isso. Não adianta configurar uma ferramenta que ninguém sabe que existe. Avise uma pessoa de confiança sobre as decisões que você tomou.
Talvez essa conversa dure apenas alguns minutos. Para quem ficar, porém, ela poderá significar acesso às fotografias de uma vida inteira, ou a tranquilidade de saber exatamente o que você gostaria que fosse feito.
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Existe uma espécie de segunda despedida.
Ela acontece quando alguém cancela a linha telefônica, encerra o e-mail, remove os perfis e vê o nome daquela pessoa desaparecer, aos poucos, das listas e das notificações.
Essa despedida não acontece no hospital nem no cemitério. Acontece em um dia comum, diante da tela de um computador, enquanto alguém da família envia documentos e tenta explicar para uma plataforma que aquela pessoa não está mais aqui.
Eu chamo isso de morte administrativa. É um nome frio, eu sei. Mas ele é frio porque essa é justamente a parte que tem formulário, prazo e certidão.
E é por ter formulário que ela pode ser preparada.
A primeira morte ninguém escolhe.
Mas essa segunda despedida pode ser preparada com cuidado, respeito e amor.
Talvez seja por isso que alguns números permanecem salvos durante tantos anos. Não porque ainda esperamos uma ligação, mas porque apagar aquele contato parece admitir, mais uma vez, que ela nunca chegará.
E você: qual é o número que ainda não conseguiu apagar?
perguntas frequentes
O que é o contato herdeiro do Facebook e o que ele pode fazer?
É a pessoa que você escolhe ainda em vida para cuidar do seu perfil caso ele seja transformado em memorial. Segundo a central de ajuda do Facebook, ela pode escrever uma publicação fixada, atualizar a foto do perfil e a de capa, pedir a remoção da conta e baixar uma cópia do conteúdo que você compartilhou, se você tiver habilitado isso. Ela não pode fazer login na sua conta, ler as suas mensagens, nem remover amigos ou enviar novas solicitações.
Existe lei de herança digital no Brasil?
Não existe lei específica. O Superior Tribunal de Justiça começou a julgar o tema em 12 de agosto de 2025, no REsp 2.124.424, na 3ª Turma, sob relatoria da ministra Nancy Andrighi. A proposta separa bens digitais patrimoniais, que se transmitem, dos existenciais, que em regra não se transmitem. Esse julgamento foi suspenso por pedido de vista e ainda não foi concluído, então não há decisão firmada.
Como transformar em memorial ou remover o perfil de uma pessoa falecida no Instagram?
São dois caminhos com exigências diferentes. Qualquer pessoa pode pedir a transformação em memorial, e o Instagram aceita como prova do falecimento o link para o obituário ou para um artigo de jornal. Já a remoção só pode ser pedida por familiares próximos confirmados, com provas como a certidão de nascimento, a certidão de óbito ou a comprovação de que você é o representante legal da pessoa ou do espólio. A plataforma não fornece a senha em nenhum dos casos.
se alguma coisa aqui fez sentido, me conta no dm. pode ser uma palavra só — eu respondo.

