Denison Luz.
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Comportamento humano 22 jul 20266 min de leitura

Você é referência pra alguém e nem sabe

Um cara que eu não via há mais de vinte anos me mandou uma mensagem. E me fez entender uma coisa que eu passei a vida inteira sem enxergar sobre mim.

em resumo

Ser referência pra alguém é influenciar o que a pessoa acredita ser possível — quase sempre sem intenção e sem plateia. Não depende de palco nem de seguidor: acontece quando alguém te observa em silêncio e se espelha em como você vive. Por isso o exemplo que você dá quando acha que ninguém está olhando é justamente o que mais forma o outro.

Semana passada eu abri o WhatsApp e recebi uma mensagem de um amigo de escola que eu não vejo há mais de vinte anos. Adolescência, aquela fase que a gente acha que esqueceu. Ele escreveu um textão. No meio de tudo, uma frase me parou: “cara, você foi a primeira pessoa que me fez achar que dava pra eu gostar de mim do jeito que eu era”.

Reel

Eu li três vezes. Porque eu não lembrava de ter feito nada.

Deixa eu te contar como era. A gente estudava num colégio particular no bairro da Barra, em Salvador. E a Barra, naquele tempo, quase não tinha gente negra… num colégio daquele, eu era uma raridade. Numa sala de mais de trinta alunos, só tinha dois negros: eu e ele. E eu só estava ali por causa dos meus pais. Eles foram a primeira geração de negros da família a se formar na faculdade: meu pai, negro, formado em Administração de Empresas; minha mãe, negra, formada em Medicina, obstetra. Botar os filhos naquela escola da Barra foi a forma que eles acharam de dar o melhor que dava. Sabe aquela vontade de dar pro seu filho mais do que você teve? Era isso. Sempre foi isso.

E a gente vivia aquilo de formas opostas. Eu cheguei ali já inteiro, e isso não foi sorte: foi criação. Meus pais me deram consciência racial e letramento racial fortes desde pequeno. “Orgulho de ser negro” é uma frase que eu ouço deles desde que me entendo por gente. Quando eu quis deixar o cabelo crescer, botar tranças, fazer dreadlocks, nunca teve problema em casa — pelo contrário, meus pais sempre me apoiaram, eu e meus dois irmãos. Então eu não precisei aprender a gostar de mim na marra. Eu já fui gostando, porque me ensinaram.

Ele não teve isso. E dava pra ver. Ele passava creme pra alisar o cabelo, evitava o sol, fazia piada da própria cor antes que fizessem por ele. Eu não olhava aquilo com pena. Eu olhava como um problema que precisava ser resolvido, porque racismo com você mesmo não é coisa saudável. Eu tentava fazer ele enxergar de outro jeito, e às vezes eu até me irritava, porque não conseguia. Eu queria que ele visse o que eu via, e ele não via.

Eu achava que estava ali só discutindo com um amigo teimoso. Ele estava me observando.

Aí, quando a mensagem chegou vinte anos depois, eu entendi uma coisa que passei a vida inteira sem enxergar: a gente vira referência pra alguém exatamente no momento em que acha que não está fazendo nada de especial. Ninguém me chamou de referência naquela época. Não tinha palco, não tinha seguidor, não tinha ninguém batendo palma. Tinha um menino, do meu lado, aprendendo em silêncio que dava pra ser negro e inteiro ao mesmo tempo. Ele não aprendeu isso porque eu dei um discurso. Aprendeu só de me ver sendo.

E olha o tamanho da corrente. O que meus pais plantaram em mim, eu passei pra ele sem saber que estava passando. A consciência que me deram em casa virou, sem eu perceber, a primeira vez que ele se imaginou inteiro. Referência é isso: uma coisa que anda de gente pra gente, quase sempre sem ninguém anunciar.

Referência é isso: uma coisa que anda de gente pra gente, quase sempre sem ninguém anunciar.

Não que ter orgulho de mim tenha me blindado do mundo. Poucos anos depois, terminando a faculdade, eu abri o Photoshop e apaguei os meus próprios dreadlocks das fotos antes de mandar currículo pra empresa internacional. E aqui eu preciso ser exato, porque é diferente do que parece: eu não fiz aquilo por vergonha de quem eu era. Eu tinha orgulho de ser negro e sabia muito bem da minha capacidade. Só que eu também já tinha entendido que vivia num mundo racista, e que a minha cor e o meu cabelo podiam ser o detalhe que fazia uma pessoa racista me barrar antes mesmo de me conhecer. O problema nunca foi meu. Era delas. Mas saber que a culpa é do outro não te protege do racismo do outro — e naquele dia eu escolhi passar pela porta.

É essa a diferença que meus pais me deram: mesmo dobrando a cabeça diante de um mundo racista, eu nunca duvidei de mim. Eu sabia onde morava o defeito, e não era em mim. E é essa segurança, essa de saber quem você é mesmo quando o mundo tenta te diminuir, que aquele colega enxergou e quis pra ele. Não era o meu cabelo. Era o meu chão. É o que eu já contei aqui sobre como ver alguém parecido com você muda o que você acredita ser possível.

Eu cresci vendo isso e demorei pra ligar os pontos. Minha mãe foi uma das primeiras médicas negras da cidade onde a gente morava. Ela não acordava pensando “hoje vou ser inspiração pra alguém”. Ela acordava pra trabalhar, pra pagar as contas, pra dar conta de três filhos. Mas cada menina negra daquela cidade que a viu de jaleco entendeu, sem ninguém explicar, que aquele lugar também podia ser dela. Minha mãe foi referência de uma geração inteira enquanto achava que estava só fazendo o trabalho dela. É por isso que representatividade importa tanto para crianças negras — não como discurso, mas como permissão silenciosa.

Referência não é quem sobe no palco. É quem alguém escolhe seguir quando ninguém mandou.

Hoje eu faço um vídeo e milhões de pessoas veem. Mas semana dessas eu postei uma frase boba, dessas que a gente escreve no automático — “às vezes você acha que tá só vivendo, mas sem perceber tá sendo referência” — e ela explodiu. Dois milhões e setecentas mil pessoas. Eu fiquei tentando entender por que aquilo tocou tanta gente, e a resposta é simples: porque todo mundo tem um menino observando do lado. Um filho. Um irmão mais novo. Um colega. Alguém que não vai te dizer hoje, e talvez só te diga daqui a vinte anos, numa mensagem no WhatsApp.

Eu tenho três filhos. E depois dessa mensagem eu passei a olhar pra eles diferente. Porque a maior parte do que eu vou passar pra eles não vai ser no sermão, na frase bonita. Vai ser no que eu faço quando acho que eles não estão olhando — do mesmo jeito que meus pais me formaram menos pelo que falavam e mais pelo que eram. Como eu trato a mãe deles. Como eu reajo quando dou errado. Se eu ando com o orgulho que me ensinaram ou se eu me encolho. Não é à toa que tanta coisa muda na vida de um homem quando ele se torna pai: eles estão aprendendo a ser gente me assistindo viver, e a corrente que começou nos meus pais agora passa por mim pra eles.

Você provavelmente já é referência de alguém que nunca vai te contar. Alguém repara em como você se levanta depois de cair, em como você fala de você mesmo, em como você trata quem não pode te dar nada em troca. Você não precisa ser perfeito pra isso. Aquele menino não me seguiu porque eu era perfeito. Ele me seguiu porque eu tinha chão.

Então talvez valha a pena viver como quem sabe que tem alguém olhando. Não pra fingir. Pra honrar — quem veio antes de você, e quem vem depois.

Qual foi a pessoa que virou sua referência sem nunca ter feito nada de propósito pra isso? Faz um exercício comigo hoje: manda uma mensagem pra ela. Do mesmo jeito que aquele menino, vinte anos depois, mandou pra mim.

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perguntas frequentes

O que significa ser referência pra alguém sem perceber?

Significa influenciar o que outra pessoa acredita ser possível sem ter essa intenção e sem nenhuma plateia. Não depende de fama, cargo ou palco. Acontece quando alguém te observa em silêncio — um filho, um colega, um irmão mais novo — e se espelha na forma como você vive, reage e se trata. Muitas vezes você só descobre anos depois, quando essa pessoa te conta.

Preciso ser bem-sucedido ou famoso pra ser referência de alguém?

Não. Referência não é sobre resultado exposto, é sobre exemplo vivido. A pessoa que mais te formou provavelmente nunca teve palco: foi uma avó, uma mãe, um professor, um amigo. O que marca não é a conquista que aparece, é a coerência que se vê de perto — como você se levanta depois de cair e como você trata quem não pode te dar nada em troca.

Como isso muda a forma como eu vivo o dia a dia?

Muda porque desloca o foco do que você mostra pro que você é quando ninguém está julgando. Se alguém está aprendendo com você em silêncio, o exemplo que importa é o dos bastidores: como você fala de si mesmo, como reage ao erro, como respeita as pessoas. Não se trata de virar perfeito nem de se vigiar. Se trata de viver com um pouco mais de consciência de que você não está tão sozinho quanto pensa.

se alguma coisa aqui fez sentido, me conta no dm. pode ser uma palavra só — eu respondo.