denison luz
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Comportamento humano 26 ago 20268 min de leitura

Talvez você não precise de mais informação. Precise começar.

Às vezes a gente pesquisa tanto como começar que nunca começa. E o mais perigoso é que não parece que estamos parados: parece que estamos fazendo algo.

em resumo

Porque pesquisar dá a sensação de movimento sem o risco da exposição: enquanto você estuda como fazer, nada seu pode fracassar. Mas ninguém consegue estudar antecipadamente uma experiência inteira. Existe muito movimento em volta da decisão e pouco na direção dela — e algumas respostas só aparecem depois que você começa.

Tem uma coisa que eu tenho observado de muito perto ultimamente.

E talvez justamente por estar tão perto tenha começado a me incomodar e a me fazer pensar.

Eu convivo com alguém que amo, uma pessoa inteligente, cheia de capacidade, de ideias, de possibilidades.

E vejo essa pessoa buscando caminhos.

Pesquisando.

Assistindo.

Lendo.

Tentando entender.

Procurando referências.

Tentando descobrir qual seria a melhor escolha antes de começar alguma coisa nova.

Não vou contar a história dessa pessoa porque não é minha história para contar.

E também não estou falando isso como crítica.

Muito pelo contrário.

Observar isso me fez perceber um comportamento que existe em muita gente — e que também existe em mim.

Às vezes a gente pesquisa tanto como começar que nunca começa.

E o mais perigoso é que não parece que estamos parados.

Parece que estamos fazendo alguma coisa.

Quando preparação e movimento parecem a mesma coisa

Você quer começar um projeto.

Então pesquisa.

Quer mudar de profissão.

Assiste a alguns vídeos.

Quer começar a produzir conteúdo.

Procura saber qual câmera comprar, qual plataforma usar, como funciona o algoritmo, qual nicho escolher.

Quer abrir um negócio.

Começa a acompanhar pessoas que já fizeram isso.

E nada disso está errado.

Informação é importante.

Preparação é importante.

Conhecimento evita muitos erros.

O problema começa quando você não consegue mais identificar a fronteira entre se preparar para fazer e adiar fazer.

Porque sempre existe mais alguma coisa para aprender.

Sempre existe outro vídeo.

Outro especialista.

Outro método.

Outro livro.

Outra opinião.

Outra pessoa fazendo aquilo melhor do que você imagina conseguir fazer.

E, sem perceber, você pode passar meses em movimento…

sem sair do lugar.

Talvez você não esteja sem ideias

Essa foi uma das coisas que comecei a perceber.

Talvez muita gente não esteja travada por falta de ideias.

Está travada pelo excesso delas.

Tem tanta informação entrando que já não consegue escutar o próprio pensamento.

Acorda e olha o celular.

Toma café assistindo alguma coisa.

Vai trabalhar ouvindo um podcast.

Tem cinco minutos livres e abre o Instagram.

À noite assiste a mais alguma coisa para “aprender”.

E ainda existe aquela sensação:

“Eu preciso pesquisar um pouco mais.”

Mas quando acontece o momento em que tudo isso que entrou encontra espaço para ser processado?

Quando você fica sozinho com suas próprias ideias?

Quando você pergunta:

“Tá bom. Eu já ouvi todo mundo. O que EU penso sobre isso?”

Talvez esteja faltando justamente isso.

Silêncio.

O silêncio que incomoda

E não estou falando necessariamente de meditação.

Estou falando de ficar algum tempo sem alguém falando dentro da sua cabeça.

Parece simples.

Mas experimenta.

Vai caminhar sem fone.

Fica numa fila sem pegar o celular.

Toma um café sem abrir nenhuma tela.

Dirige alguns minutos sem música, podcast ou vídeo.

Deita e não pega imediatamente o telefone.

É impressionante como rapidamente aparece uma vontade de preencher aquele espaço.

Porque nos acostumamos a receber estímulos o tempo inteiro.

E talvez o silêncio seja desconfortável justamente porque, quando o barulho externo diminui, algumas coisas internas começam a aparecer.

Ideias.

Medos.

Dúvidas.

Vontades.

Coisas que você vem adiando.

E perguntas que vídeo nenhum pode responder por você.

Pesquisar também pode ser uma forma de proteção

Essa parte é mais delicada.

Porque comecei a pensar que, algumas vezes, continuar aprendendo é uma maneira muito sofisticada de não se colocar à prova.

Enquanto você pesquisa como abrir um negócio, seu negócio não pode fracassar.

Enquanto estuda como escrever um livro, ninguém pode dizer que seu livro não é bom.

Enquanto aprende como produzir conteúdo, ninguém pode rejeitar aquilo que você ainda não publicou.

Enquanto aprende como produzir conteúdo, ninguém pode rejeitar aquilo que você ainda não publicou.

Enquanto planeja o projeto perfeito, você ainda pode imaginar que ele será perfeito.

A possibilidade é sempre impecável. A realidade não.

Quando alguma coisa sai da nossa cabeça e entra no mundo, ela fica vulnerável.

Pode dar errado.

Pode ficar ruim.

Pode não funcionar.

Alguém pode não gostar.

Talvez ninguém preste atenção.

E existe uma possibilidade ainda mais desconfortável:

você pode descobrir que ainda não é tão bom naquilo quanto imaginava.

Só que existe uma coisa que esquecemos:

ninguém precisa ser bom antes de começar.

Talvez você esteja tentando começar já sabendo

Isso acontece muito.

A gente olha para alguém que está fazendo determinada coisa há cinco, dez, vinte anos e pensa:

“Eu nunca conseguiria fazer desse jeito.”

Provavelmente não.

Pelo menos não agora.

Mas você está comparando o seu primeiro passo com o passo número mil de outra pessoa.

Você vê o vídeo pronto.

Não vê os primeiros vídeos ruins.

Vê o negócio funcionando.

Não vê as decisões erradas.

Vê alguém escrevendo bem.

Não vê os textos que aquela pessoa jamais publicaria hoje.

A gente vê o resultado dos outros e compara com aquilo que ainda nem começou dentro da gente.

É uma comparação impossível de vencer.

Você não aprende tudo para depois começar.

Em muitas coisas da vida, você começa para descobrir o que precisa aprender.

A sua vida também é repertório

E existe outra coisa que me preocupa nesse excesso de consumo.

Quando passamos tempo demais olhando para o que os outros estão criando, podemos começar a acreditar que as boas ideias estão sempre fora de nós.

No próximo livro.

No próximo podcast.

Na próxima pessoa.

No próximo vídeo.

Só que você já carrega um repertório que ninguém mais possui.

Sua infância.

Seus erros.

Suas relações.

As conversas que teve.

As pessoas que perdeu.

As coisas que deram certo.

Aquilo que você acreditava dez anos atrás e já não acredita mais.

As perguntas que seus filhos fazem.

Uma frase que sua mãe dizia.

Uma conversa que aconteceu ontem.

Um problema que você conseguiu resolver.

Uma coisa que ainda não conseguiu.

Tudo isso é matéria-prima.

Mas existe uma condição:

você precisa prestar atenção na própria vida.

Se todo espaço vazio é preenchido imediatamente pela vida de outra pessoa numa tela, sobra pouco espaço para perceber a sua.

Existe muito movimento em volta da decisão

Talvez essa seja a frase que melhor resume o que tenho observado:

às vezes existe muito movimento em volta da decisão e pouco movimento na direção dela.

Você pesquisa.

Planeja.

Salva.

Organiza.

Compara.

Pergunta.

Estuda.

Mas não faz.

E chega um momento em que mais informação deixa de trazer clareza.

Ela começa a trazer novas possibilidades.

Cada vídeo abre outras três perguntas.

Cada especialista apresenta outra estratégia.

Cada pessoa diz que existe uma maneira melhor.

E você começa a acreditar que ainda não está preparado.

Talvez nunca esteja.

Porque ninguém consegue estudar antecipadamente uma experiência inteira.

Algumas respostas simplesmente não existem antes de você começar.

Eu também preciso tomar cuidado com isso

E talvez observar isso tão perto de mim tenha servido como um espelho.

Porque é muito fácil perceber quando outra pessoa está adiando alguma coisa.

Difícil é perceber quando somos nós.

Eu também pesquiso.

Também procuro referências.

Também quero entender antes de fazer.

Também posso cair na armadilha de procurar mais uma informação quando, na verdade, já tenho informação suficiente para dar o próximo passo.

Por isso não escrevo isso apontando o dedo para ninguém.

Escrevo porque talvez seja uma característica muito humana:

queremos diminuir o risco antes de nos expor.

Só que criar alguma coisa exige exposição.

Começar exige aceitar que ainda não sabemos.

Talvez alguém que você ama esteja vivendo isso

Pode ser seu marido.

Sua esposa.

Um filho.

Um amigo.

Alguém extremamente capaz que você olha e pensa:

“Se essa pessoa conseguisse enxergar o que eu enxergo nela…”

Mas talvez não seja sua função empurrá-la.

Nem julgá-la.

Nem dizer que está perdendo tempo.

Cada pessoa tem seus medos, seu tempo e sua história.

Às vezes, amar alguém também significa entender que você não pode dar o primeiro passo por ela.

Pode apoiar.

Pode incentivar.

Pode estar ao lado.

Mas algumas portas só abrem por dentro.

E talvez, enquanto você pensa nessa pessoa, perceba uma coisa ainda mais interessante:

talvez exista alguém pensando exatamente isso sobre você.

Então experimente uma coisa

Não precisa abandonar as redes sociais.

Não precisa parar de estudar.

Não precisa demonizar conteúdo.

Eu aprendo todos os dias com outras pessoas e pretendo continuar aprendendo.

Mas experimente criar um pouco de espaço entre consumir e consumir novamente.

Quando terminar aquele vídeo interessante, não assista imediatamente ao próximo.

Pensa.

Quando ler alguma coisa que mexeu com você, não procure imediatamente outra opinião.

Pergunte:

“Por que isso mexeu comigo?”

E principalmente, quando sentir vontade de pesquisar mais alguma coisa sobre aquele projeto que você continua adiando, faça uma pergunta:

“Essa informação realmente vai mudar o que eu vou fazer ou estou procurando mais uma razão para ainda não começar?”

Talvez você realmente precise daquela informação.

Então procure.

Mas talvez não.

Talvez já tenha chegado a hora de fechar algumas abas.

Colocar o celular de lado.

E fazer.

Porque você já consumiu muita coisa

Você provavelmente sabe mais do que sabia cinco anos atrás.

Tem mais referências.

Mais acesso.

Mais ferramentas.

Mais possibilidades.

E amanhã haverá mais.

Sempre haverá mais alguma coisa para assistir.

Mais alguma coisa para ler.

Mais alguma coisa para aprender.

Você nunca vai chegar ao final da internet.

Mas vai chegar ao final do seu tempo.

E talvez essa seja a parte que realmente importa.

Porque, no fim, ninguém vai conseguir viver todas as possibilidades que imaginou.

Em algum momento precisamos escolher algumas delas e transformá-las em vida.

Então talvez você não precise de mais inspiração.

Talvez não precise de mais um vídeo.

Talvez não precise de outra pessoa dizendo como começar.

Talvez precise de um pouco de silêncio para conseguir ouvir uma voz que ficou baixa no meio de todas as outras:

a sua.

E depois disso, fazer alguma coisa.

Pequena.

Imperfeita.

Talvez até ruim.

Mas sua.

Porque existe uma diferença enorme entre passar a vida aprendendo sobre as coisas que você gostaria de fazer…

e um dia finalmente começar a fazê-las.

Talvez você não precise aprender mais para começar.

Talvez precise começar para descobrir o que ainda precisa aprender.

Leia também

perguntas frequentes

Como saber se estou me preparando ou apenas adiando?

Antes de procurar mais uma informação, faça uma pergunta: isso vai mudar o que eu vou fazer, ou é mais uma razão para ainda não começar? Se a resposta não muda nenhuma ação concreta, você não está se preparando. Preparação tem fim e vira execução; adiamento sempre encontra o próximo vídeo.

Por que sinto que nunca estou pronto para começar?

Porque você está comparando o seu primeiro passo com o passo número mil de outra pessoa. Você vê o vídeo pronto e não os primeiros vídeos ruins; vê o negócio funcionando e não as decisões erradas. É uma comparação impossível de vencer. Ninguém precisa ser bom antes de começar.

O que fazer quando tenho ideias demais e não consigo escolher?

Provavelmente não falta ideia, falta silêncio para processar o que já entrou. Tente caminhar sem fone, ficar na fila sem o celular, dirigir sem podcast. É desconfortável no começo, e é justamente aí que aparecem as ideias, os medos e as coisas que você vem adiando.

se alguma coisa aqui fez sentido, me conta no dm. pode ser uma palavra só — eu respondo.